Quarta-feira, 15 de Julho de 2009

"My Story" por Priscila Magalhães - Continuação

Olá...

Bem, mais um pouquinho da história espectacular da Priscila. Não se esqueçam de comentar, pois é importante para os escritores...

 

 

Vi, então, uma silhueta ser projectada no vidro fosco que se aproximava pelo lado esquerdo da paragem onde eu me encontrava. O meu corpo ficou, imediatamente, alerta. Era muito raro encontrar alguém, para além de mim mesma, a apanhar o autocarro nesta zona, se tivermos em conta que vivo, relativamente, isolada. A casa mais próxima da minha encontra-se, no mínimo, num raio de oitocentos metros. Portanto, qualquer ser humano que encontro, é algo que me deixa com muitas dúvidas e desconfianças.

Baixei a cabeça e contemplei, sem entusiasmo, os botões do casaco negro que envergava. Não foi necessário levantar o meu olhar para saber que alguém se encontrava próximo. Uma segunda respiração juntou-se à minha, sendo esta ligeiramente mais acelerada. Era ainda possível sentir um leve aroma a aftershave emanar da sua pele, aroma que se intensificou quando uma ligeira brisa percorreu a paragem da esquerda para a direita, levando o seu agradável cheiro até mim. Surpreendeu-me. Fechei os olhos com prazer para os meus sentidos se apurarem. Inspirei profundamente como que querendo que o tão desejável cheiro passasse a fazer parte de mim. As minhas narinas dilataram convidando-o a entrar. Durante um momento, acreditei ter conseguido saboreá-lo, fazendo com que me crescesse água na boca.

Aconteceram diversas coisas simultaneamente. Sem pensar, o meu olhar procurou aquele que tanto ansiava conhecer, o que não demorou mais que um segundo a acontecer. Sentindo a minha inquietação, ele procurou também o meu e, sem ter premeditado, todo o meu corpo reagiu àquele indivíduo desconhecido. Percorreu-me, de alto a baixo, um tremor que nada tinha a ver com frio. Apoderou-se de mim um desejo incontrolável de o ter. O dourado dos seus olhos pareceu iluminar-se quando me olhou. Nunca tinha visto olhos tão bonitos como aqueles.

Tudo parecia mover-se em câmara lenta, eu, ele, os carros, o vento, a chuva. Todo o ruído provocado pelo colidir da chuva com o alcatrão, o assobiar do vento de encontro aos meus ouvidos, o contacto apressado dos carros com o asfalto escorregadio nas ruas adjacentes. Todo o som que me rodeava, toda a sua imensidão que me perturbaria num momento banal, agora não ultrapassava a importância de barulho de fundo, como aquelas músicas que passam em lojas e cafés com o volume abaixo do que se ouviria normalmente, aquele que sabemos que está lá mas que não está realmente, ou melhor, aquele com que o nosso inconsciente aprendeu a lidar sem lhe dar atenção suficiente.

 Dentro da minha cabeça só conseguia ouvir com alguma nitidez a minha respiração que se tinha alterado notoriamente, o meu coração que batia descompassado, sem qualquer sentido de ritmo aparente, parecendo palpitar frenético sob a vastidão da minha pele, fazendo com que cada célula do meu corpo e do meu ser desejasse ardentemente apenas um toque seu. Vi-me levantar levemente o braço direito, esticando os dedos o mais que o meu corpo o permitiu, tentando reduzir aquela mínima distância que me separava dele. Tudo não passou de imaginação. Tão perto mas simultaneamente tão longe. A distância tão dolorosamente curta mas com a vastidão de um oceano que não lhe conseguimos sequer vislumbrar indícios do final.

Foi então que ouvi o som que à tanto esperava ouvir, mas não agora. Ouviram-se as rodas do autocarro chiarem, quando o motorista travou a fundo para parar em frente à paragem onde nos encontrávamos. As portas abriram ruidosamente e foi ele quem cortou esta ligação que senti tão intensamente. Por momentos, fiquei sem saber como reagir a todo aquele momento inesperado e indesejado. Sentia-me zonza devido ao culminar de sensações e emoções que aquele olhar que trocámos despertou em mim sem avisar.

O ruído provocado pela chegada do autocarro não foi suficiente para me despertar totalmente do meu estado semi-consciente, até que o motorista perguntou se eu ia entrar. Foi então que me apercebi que o homem que me olhava já suspirava de irritação. Acordei finalmente do transe em que me encontrava e subi ao autocarro, não querendo abusar da minha sorte. Dirigi-me com passos vacilantes, apoiando-me aqui e acolá nos encostos dos bancos mais próximos enquanto o meu corpo me guiou até à minha habitual penúltima fila do lado direito. Sentei-me e arrastei o meu corpo até ao banco que se encontrava mais próximo da janela, encostando-me ao vidro embaciado.

O autocarro recomeçou o seu trajecto descendo a rua lentamente. Limpei, com a manga do casaco, o vidro embaciado que me impedia de observar a paisagem que se podia avistar do ponto onde me encontrava, não que a tivesse realmente a ver. A duração interminável da viagem deixava-me muita margem para os meus pensamentos vaguearem sem que eu conseguisse realmente controlar aquilo que estava prestes a surgir-me. A minha mente continuava um pouco entorpecida pelos acontecimentos demasiado recentes.

 

 

 

 

 

Continua...

publicado por Diana às 22:23

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2 comentários:
De M.r.M. a 15 de Julho de 2009 às 22:56
Parabéns Priscila. Tens uma óptima escrita!

Umas das coisas que mais admiro nela é que tu és capaz de transmitir as sensações do que a tua personagem principal e as outras estão a sentir sem recorreres a dialogo nenhum

Parabéns.
De Maria a 16 de Julho de 2009 às 14:12
Parabéns, está muito bom...
consegues mesmo fazer-me sentir a tua história, envolvendo-me nela, e quando acaba, oh bolas, onde está o resto?

Continua,
Maria.V*

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