Terça-feira, 16 de Junho de 2009

"My Story" por Priscila Magalhães - Continuação

Olá...

Aqui está a continuação da fantástica história da Priscila. Disfrutam!

Não se esqueçam de ler o início se ainda não o fizeram, e não deixem de criticar.

 

*

O relógio marcava oito horas. Encontrava-me deitada sobre a minha cama de casal, ainda com a roupa vestida do dia anterior. Por norma, a esta hora, estaria a entrar pelo portão da escola para mais um dia cansativo de aulas. No entanto, na noite anterior, havia decidido faltar, pois não seria capaz de enfrentar nem de me deparar com o mesmo cenário de ontem, muito menos dar de caras com Richard.

Passei a noite em claro, sem conseguir descansar mais que duas horas de cada vez, estando esse pequeno período povoado de pesadelos. Via, sem cessar, imagens que a minha imaginação recriava dos encontros de Richard e Nicole. Juntos em sua casa, devorando a boca um do outro vorazmente. No café, onde provavelmente se teriam encontrado ontem à vista de todos. Momentos que passavam uns atrás dos outros, cada vez mais rápido, deixando-me tonta e com lágrimas constantemente a cobrir-me a face.

No espaço de tempo que decorria entre um pesadelo e outro exactamente igual, chorava sem cessar, deitada, em posição fetal, com os braços a rodearem os joelhos, tentando não me transformar e dividir em mil cacos, tentando manter-me intacta apesar de as minhas forças me começarem a faltar. O cansaço acabava sempre por me vencer e eu adormecia a chorar. Acordava, constantemente com novas lágrimas, que se sobrepunham às anteriores choradas, já secas sobre as minhas bochechas. Olhava, sempre que acordava, para o despertador sobre a minha prateleira, que me mostrava as horas a passar, nunca suficientemente rápido para o meu sofrimento chegar ao fim.

Sabia, agora, que não faltaria muito para os meus pais começarem a levantar-se para se dirigirem ao emprego. E não me enganei. No mesmo piso que o meu, no silêncio da manhã acabada de raiar, ouvia o movimento lento dos corpos a roçar sobre os lençóis, descansados plenamente – ao contrário de mim - e prontos para enfrentar um dia como todos os outros.

Ouvi, pouco tempo depois, passos que se aproximavam do meu quarto. Com um movimento rápido, desci para o lado esquerdo da minha cama, junto da secretária, e deitei-me o mais perto do soalho que o meu corpo o permitia. 

Desejava, ardentemente, poder fundir-me com ele. Foi então que me apercebi que alguém se dirigia ao piso inferior quando pisou o primeiro degrau da escada. No entanto, com o ruído que provoquei, indubitavelmente, um dos meus pais estancou no primeiro degrau alarmado pelo barulho que provinha do meu quarto, e voltou atrás. Desta vez, sim, alguém se dirigia ao meu quarto. Por que é que me fui mexer do lugar onde estava? Tentei controlar a minha respiração que havia acelerado um pouco e acalmar o coração que me parecia martelar no peito. Não queria, de forma nenhuma, ser apanhada em casa a esta hora pois não me sentia apta a mentir descaradamente neste momento.

Vislumbrei, por baixo da minha cama, se esquecermos o pó a centímetros do meu rosto, os pés da minha mãe surgirem na entrada do meu quarto, cobertos pelos seus chinelos de casa cinzentos. Parou sob a ombreira da porta, olhando em redor. Soltou um bocejo e dirigiu-se de novo à escadaria. Sobressaltei-me ao ouvir a voz grave mas simpática do meu pai, perguntar o que a minha mãe estava a fazer, tão perto. Também ela sobressaltada disse que lhe parecia ter ouvido movimento no meu quarto mas que devia ter sido impressão sua porque eu já tinha saído à bastante tempo de casa para ir para as aulas. Já não consegui ouvir o que o meu pai retorquiu em resposta pois os dois já tinham descido as escadas e ido para a cozinha.

Lentamente reergui-me e ocupei a minha anterior posição. Sabia que agora mais ninguém iria voltar a confirmar se eu me encontrava em casa. Para além disso, a cama era muito mais confortável que o soalho de madeira.

Deitada novamente sobre a colcha, rodei o meu corpo e, ficando apoiada pelo meu lado esquerdo, olhei em frente pela janela que deixava vislumbrar o sol que já havia nascido, deixando visível a extensão de planícies que circundavam a minha casa, em plano intermédio, a cidade que se erguia abruptamente, criando um contraste algo acentuado entre duas zonas distintas dentro da mesma cidade e, finalmente, em plano de fundo, o rio Tejo, que rodeava parcialmente a capital separando-a da margem sul.

Sentindo-me exausta, mas sem vontade de cair novamente nos pesadelos que me atormentaram durante toda a noite, pus-me a observar o quarto em volta. 

A janela, por onde à pouco observava a paisagem que me rodeava, encontra-se na parede mais afastada da porta de entrada, que está virada a sudeste, nascendo a janela no seu lado esquerdo e possuindo cerca de dois metros de altura por um de largura. Deste lado esquerdo, perpendicularmente, existe a parede mais comprida do quarto que se prolonga até à porta de entrada, contendo-a, sendo esta a única pintada de violeta, estando, também, a esta encostadas, a secretária, a cabeceira da minha cama de casal e uma mesa-de-cabeceira, sendo a primeira a mais próxima da janela e a última a mais próxima da porta que dá entrada ao quarto. Na parede que lhe é oposta, e que não é tão comprida como ela, mesmo em frente à cama, pode vislumbrar-se o roupeiro, do lado esquerdo do mesmo, uma chaise longue com um candeeiro de pé, o cantinho destinado às leituras, e do lado direito do roupeiro, um espelho alto, encostado à parede, que permite vislumbrar a indumentária da cabeça aos pés. Para além disso, na parede que se encontra paralelamente à da janela, não sendo tão larga como ela pois desta nasce um pequeno corredor que liga o centro do quarto até à porta, esta encontra-se coberta com quatro prateleiras folhadas de negro, assim como a mesa-de-cabeceira, a cama e o roupeiro. O meu quarto pode quase dizer-se que tem a forma de um L invertido pois dentro dele está inserida a casa de banho que me está destinada, sendo que esta ocupa a restante área do meu quarto, que sem ela, constituiria um rectângulo perfeito. 

Não me apercebi quanto tempo me perdi nesta descrição quase perfeitamente detalhada do meu quarto, mas fiquei relativamente feliz porque esse era o meu objectivo. Apurei os ouvidos e tomei por certo, os meus pais já não se encontrarem em casa pois não ouvia qualquer ruído aparente de movimento. Já me encontrava esfomeada por isso arrisquei espreitar ao andar inferior. Nada. Com pezinhos de lã desci os dois lanços de escadas e lentamente dirigi-me à cozinha após me certificar que me encontrava sozinha.

Devorei o meu pequeno-almoço habitual, uma taça com leite e cereais e o meu estômago agradeceu o abastecimento. Dirigi-me ao lava-loiça e passei por água tudo o que lá se encontrava resultante do pequeno-almoço e depositei todas as peças de loiça na máquina de lavar. Ainda não se encontrava cheia para pô-la novamente a trabalhar portanto dirigi-me à zona da sala, que albergava, simultaneamente, a sala de estar e sala de jantar, estando, também a estas, associada a zona da cozinha, como um único e amplo espaço que contêm estas diferentes divisões sem paredes a separá-las. Sentei-me sobre o sofá durante um momento a tentar decidir o que fazer com o dia que se adivinhava longo à minha frente. Olhei ao meu redor. O piso inferior estava impecável, perfeitamente arrumado e limpo. Veio-me uma imagem ao pensamento. Mas o mesmo não acontecia com o meu quarto.

Dirigi-me novamente ao piso superior e comecei por arrumar a roupa que se amontoava na minha cadeira em frente à secretária, escolhendo o que seria para lavar e o que seria depositado novamente no armário. Depois dessa tarefa concluída, dirigi-me à cozinha para pôr a máquina a trabalhar. Voltei para cima e continuei a habitual arrumação.

Demorei uma eternidade a concluí-la. Quando acabei, o relógio, assim como o meu estômago, anunciava que já passava das duas horas da tarde. No entanto, transpirada e coberta de pó depois de uma manhã de limpeza, antes de descer para almoçar, fui direita ao polibã para tomar um banho mais que merecido. Por lá me demorei mais cerca de quarenta minutos mas quando saí sentia-me exponencialmente melhor. Abri a janela para o sol entrar e aquecer o quarto.

Fui, depois, directa à cozinha e preparei um arroz branco acompanhado de legumes salteados. Sentei-me num dos seis bancos altos que rodeavam a bancada central e apreciei com agrado os sabores diversos que a comida me oferecia. Comi em silêncio. Quando acabei, levei o prato até ao lava-loiça e tirei um copo do armário em cima de mim. Enchi-o com água corrente e ao fim de dois ou três goles pousei-o na bancada, vazio. Passei por água o prato e os talheres e coloquei-os na máquina.

Dirigi-me novamente ao meu quarto. Fechei a janela que há pouco tinha aberto. Eram agora três e meia da tarde. Não sabia há quanto tempo ansiava por ter um dia inteiro para me dedicar aquilo que quisesse. Agora que estava a acontecer não sabia o que fazer com as horas que se arrastavam.

Lembrei-me de um trabalho que tinha que fazer para português sobre Fernando Pessoa Ortónimo. Tinha que analisar dois poemas, e a poesia não é definitivamente o meu forte. Pus mãos à obra e tentei concentrar-me o máximo que me foi possível no trabalho e no que a professora havia dito durante as aulas, tentando extrair informação que me pudesse ajudar. Isto ia demorar.

Este, aparentemente, pequeno trabalho, tomou-me o restante tempo da minha tarde. Fiz um intervalo por volta das seis horas para comer uma maçã e um iogurte, voltando de seguida ao trabalho para o concluir. Acabei-o pouco tempo depois de os meus pais voltarem para casa por volta das oito e trinta.

Fui, sem pressas, até à cozinha no piso inferior e cheguei a tempo do jantar acabar de fazer. Sentei-me à mesa da sala de jantar, com os meus pais em frente, e comi calmamente.

Tagarelavam, incessantemente, sobre os seus dias, o que tinha acontecido no emprego, clientes que os tiraram do sério, etc. Dirigiram-se a mim uma vez para me perguntar o que tinha feito e fui o mais fiel possível à realidade ocultando, apenas, o pequeno pormenor que não tinha ido às aulas. Depois disso, comi já sem fingir ligar realmente ao que falavam um com o outro, levantando apenas a cabeça quando um nome foi proferido pela minha mãe, Kevin.

- Mãe, repete lá isso que dizias sobre o Kevin – pedi.

- Estava a dizer que, ainda agora, quando voltei e estava a estacionar o carro, vi uma carrinha grande de mudanças, na casa seguinte mais abaixo, a casa do Kevin. Pareceu-me que a mudança estava quase a acabar e …

Nem a deixei acabar. Levantei-me da mesa, ainda com metade do jantar no prato e dirigi-me à porta da entrada. Os meus pais lançavam interjeições admiradas enquanto calçava uns ténis para sair de casa e correr pela rua abaixo antes que fosse tarde de mais. Já estava escuro e arrependi-me de não ter vestido um casaco para me abrigar do vento que se tinha levantado. Rodeei o jardim bem tratado da minha casa e corri pelo passeio até me deparar com o cenário que a minha mãe me descrevera sem tirar nem pôr. 

À medida que me fui aproximando, os meus olhos percorriam a entrada e saída de homens, que me eram desconhecidos, a carregar caixas do interior da casa para o interior da carrinha até que um deles se destacou, aquele que me era conhecido, Kevin, ladeado por aquilo que me pareceu serem a sua mãe e o seu pai, apesar do meu pouco contacto com eles.

Respirei fundo, tentando reunir coragem suficiente para o enfrentar e caminhei em frente.

 

 

 

Continua...

publicado por Diana às 17:47

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5 comentários:
De p41nk1ll3r a 16 de Junho de 2009 às 22:52
é "disfrutem" e não "disfrutam" srª. Host.

força Xila!
De Priscila a 16 de Junho de 2009 às 23:17
xD Obrigada João =)
De Diana a 16 de Junho de 2009 às 23:17
Primeiro: Quanto a isso não sei qual das formas será a mais correcta, mas irei descobrir e depois direi alguma coisa;
Segundo: Obrigada pelo comentário pelo apoio prestado à xila;
Terceiro: gostei do "srª. Host"...

De Maria a 17 de Junho de 2009 às 19:58
Quero mais =)

Adorei.
Aguardo ansiosamente a continuaçao*

P.S- obrigada pelo coment , realmente a história estava mal :x
De Amor:) a 18 de Junho de 2009 às 11:51
Eu vou fazer uma confissão, eu não gosto de ler, mas esta escritora escreve é algo diferente algo que me da gosto ler, é como se ja tivesse passado por isto, tu consegues fazer com que a tu escrita desperte sentimentos, um culminar de sensações.
A tua escrita é muito boa tens imenso jeito espero que a tua dedicação continue de forma a fazeres disto um belo livro que venha a ser publicado.Só tens de te esforçar pois jeito e gosto n te faltam.

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